segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A um esqueleto

Quantas vezes, infinitas perturbadoras
Aflitivas, angustiantes, famintas vezes
Meus olhos de gelo arderam predadores
No seu esqueleto comprido amarelo
Quantas vezes, absorto em necrofagia
A pele esticando sobre seus músculos
Olhos de doença pornográfica rústica
Contradizendo esta paisagem mística

Eu delirando de orgasmo e de amor tamanho.
Com sua caveira que tanto amo
Com os dois buracos profundos de seu crânio
Que há de um dia eu vê-los me olhando.

Ander 21/09/2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Resposta



Quero vê-la com a cara pintada
De olhos de boneca de nariz vermelho
De boca enorme sorrindo mesmo calada
Tropeçando em sapatos divertidamente velhos.

Quero vê-la dançando em paralelepípedos
Esses que ganham as ruas de todos os bairros
De Minas descalça ou as vizinhas aqui de Vinhedo
As metrópoles devassas. Dançando entre os carros.

A natureza de tudo que é ser, a do beija flor
E a única força do eixo do globo, moderno bobo
O despertar da lua num canto de encanto seja dor
E a vitalidade do ladrão de amor ao grande roubo.

Seu espetáculo será intrínseco
O Coração libertando-se do peito
Cortinas metafísicas em praças e becos
Acrobáticos. Artistas marginais oriundos.

Se o corpo que a alma carrega
A psique doida a faz humana
O arlequim de suas carnes  
O furor que assim emana.

Observo em minha poesia muda
Os movimentos fluviais de seu ato
E por mais que, nesse ínterim, me irrito
É por um bobo de amar e não querer a partida.

Mas lá no meu âmago sempre Existe
A idéia Exata: a alegria do seu sorriso.

Ander 17/10/2012

Amor de outrora



O amor é assunto velho
De bengala e resmungão assim
Alguns o desconhecem esse
Outros o velam nas profundas da terra
(errantes)
E para outros de ralas pelugens frescas
Esse senhor assim na terra
Não passou do não nascer
Escrever sobre essas rugas
É a nova forma velha da loucura
Louca de hospício, amarrada:
Levomepromazina e Clozapina.

E quando à poética liquida
Escorre pelas pedras imortais
Vinculando a abstração...
Da alma aos dedos sais
Qual a facilidade ao amor
Arde em suas palavras
E ao mesmo sacaneia.

São as penas que limpa os ossos
Ossos do amor. Falando assim de amor
Como nunca vi nessa
Contemporaneidade medonha.

Ander 14/10/2012

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Circunspeção do Terror


Olhos esbugalhados e borrados
De preto circular e esquizofrenia
Medusa de serpentes doentes
Cobertas de anorexia.
A espantar a poeira dos ossos
Terra de cemitério a restar nas unhas
De vestimenta de rameira do século XVIII
Esposas das esposas de Nosferatu
Há vagar pela miséria
Por subúrbios pútridos
Numa noite de Lua
Na circunspeção do Terror
E do Drama e da Mágica crua.

Ander

Tentáculos


Sou um tentáculo de um bilhão de tentáculos
Dessa criatura pai funerária que é o Estado
E se morrer, Ander, nascera outros mil...
Outros mil tentáculos
A política é a matéria do fenômeno
E o homem estrela ego centrista é fundamental quanto,
A onisciência cósmica de um grão.

Ander

Silêncio


Ao ouvir a tosse rouca...
Tuberculosa de uma motocicleta
Do telhado cinematográfico de casa
Fui lendo algo nas asas de uma borboleta.

Nela lembrei-me de certo silêncio
Um silêncio dos antigos lá dos passados
Ao deus do silêncio faziam - se homenagens
Levando paz e tranquilidade os povos brandos.

Mas não tão longe e um pouco antes
Franklin ainda nem sonhava em empinar pipas
E a eletricidade mergulhada no mundo das ideias
Dava lugar ao mundo orquestrado do canto das aves.

Disse às asas - as asas que se expandiam;
Quero eu o meu silêncio! Dê-me o meu silêncio!
E se é para conversas só ouço os diálogos das baleias
Na imensidão do mar selando em beijos o silêncio e o bulício.

Silêncio Inteiro, saudável. Silêncio silencioso
Um resolver sem balas, feito de sabão a se desmanchar...
Nas aguas claras de arraias, de tamanduás e araras preguiçosas...
A borboleta foi levando minha alma para de certo modo eu me encontrar.

Todos deveriam reivindicar o seu silêncio
Sete bilhões nesse hábito de árvores e folhas e cabelos
Movimentados pelo sopro de um calmo Tifão o senhor dos ventos
A brisa, plácida, de folhas viradas às vinte e quatro horas da manhã.

O silêncio vai de mãos dadas a uma sombra esticada
Nessa hora um muro de tijolinhos e uma luz morta lá no alto
Na mão um livro, de filosofia alemã intrinsecamente pesada...
Ou de receita de bolo de mandioca e de biscoitos amanteigados.

Não se sabe ao certo o que veemente leva esse espectro
Mas o silencio que ele conserva representa o caos doente:
Desorganizando as ideias. Desconectando se mentalmente
Os ruídos de hoje vão devorando a gente como ultimo cancro.

Volto ao telhado de casa e ouço o absurdo com os olhos
Cem motores potentes movimentam uma frágil manivela
E no meio disso tudo o silêncio indo embora em mudo choro
E tudo por causa de um livro e uma motocicleta velha.

Ander 01/07/2012

Almas Gêmeas



Lá está o casco do navio. E esse navio suporta o mundo inteiro
Se quereres vir comigo. De me suas mãos. Mergulhamos. Mergulhamos
Agora retiramos as mascaras de oxigênio. Demos costas ao veleiro
Vê tanta beleza? Dos peixes, das algas. Dos cânticos das Sereias
Somos tudo isso. Quando compreendemos. Nossos corpos se dissolvem
Somos flores e somos anjos. Somo almas gêmeas. Você e eu.

Ander 03/04/2009