terça-feira, 4 de junho de 2013

Os reflexos monstruosos de Ruando



Fobia em sua etimologia vem do medo mórbido ou patologia que temos de lugares, objetos, altura, água, etc. Hidrofobia e aracnofobia são alguns dos conhecidos. A aracnofobia, por exemplo, leva um homem feito desesperar-se por um simples aparecimento de inofensiva aranha. Agora pegamos o caso de Ruando, sua fobia é algo de interesse singular do que nada se vê por esses tempos. Consiste em um medo aterrador de sua imagem, ver seu reflexo trás extremo pânico. Em sua cabeça sua imagem consiste em criaturas das mais assombrosas e, no entanto para uma pessoa que está ao seu lado, um desconhecido dividindo uma poltrona em um transporte publico; esse o notara como um homem de por volta de trinta e seis anos, de estatura mediana e profissão mediana, sem mais, e sem menos. O aceleramento do coração, exasperado frio nas mãos e tremedeiras são alguns dos sintomas que acompanha o pobre infeliz desde a tenra idade. Chorar o dobro de que uma criança tem para chorar em um choro, muitas vezes triplicava ao que o espelho no movimento do seu corpo ao ser trocado sua fralda refletia a imagem daquela massa ainda em desenvolvimento e mesmo sem conhecer as aflições do mundo ou ter conhecimento primário do que seu corpo ainda terá duas fases e a ultima o marcara para sempre; o andar das duas pernas. Mesmo ainda sem ter esses conhecimentos técnicos e filosóficos, o sobrenatural e patológico age em seu pequeno coração e o mutila. A criança berra, a mãe pega o acalma e não entende. Quando a criança silencia, volta ao seu berço e adormece. Horas mais tarde acorda naturalmente e segue os rituais de uma família qualquer. Casa simples como há de ser, um espelho também o é, não mais privilegio de abastada família rica de alguns séculos atrás, esse objeto é usual e nessa casa não difere, está pendurado além do banheiro, no corredor e sem demais importância em um lugar do quarto. Sem mais importância até o aparecimento de Ruando, os outros dois espelhos continuam a existir, o terceiro também, mas esse terceiro em especial, não por ser especial por algo que o faz especial, seus materiais são os mesmos dos outros, função única de refletir. O que o destaca para nossa leitura, e para Ruando, não faz diferença para a família. Para nós leitores a diferença consiste em saber que esse espelho é o único do qual Ruando faz sua autopsia, apesar de não confundirmos com necropsia, podemos levar em consideração essa colocação visto que a criança ao olhar para sua imagem enxerga sua face ainda se construindo a uma imagem humana, como é de toda criança, mas além dessas características naturais, o que ela vê é uma monstruosidade sem tamanho e apesar de seu simples cérebro não ter as noções claras sobre esses horrores, conseqüentemente  algo feio pode ser algo bonito e vice-versa num mundo infantil. Essa faceta contém olhos tão esbugalhados que saem da orbitas, o nariz desaparece e vê-se um buraco negro, e a boca, essa em sangue preto a escorrer. Em seguida a carne necrosada, como aquilo estivesse morto há dias. Essas transformações ocorrem variavelmente toda vez que a criança olha no espelho e berra como se os pulmões saíssem pela boca. Outra vez a carranca de um cão, como se mil moscas o tivessem a devorar lhe o focinho. Essas manifestações de terror é o reflexo da desgraçada criança, e logo uma criança maior e depois adolescente e homem maior. Esse pesadelo o acompanha desde então. Fachadas de prédios, lojas, veículos, a visita de rotina a um amigo ou o reflexo de dois rostos enamorados na moldura de um espelho velho. Em resumo; espelhos quebrados e tudo o que pode refletir o incompreensível e o fantasmagórico. Imaginamos que se um bebê começasse a se enxergar no mais profundo do pesadelo, se algo não cura, piora, ou fica no meio. Com dez anos piorou e Ruando passou de hospital a hospital, internado, considerado louco. Com quinze veio à cura e cinco anos de sua vida foi feliz, compreendeu, viveu seus anos de ouro. Amou. Surpreendeu-se e se embriagou. Com vinte a piora, tudo volta, ainda pior. Não só a figura macabra de sua imagem como agora essa o atacava, ele recuava em supremo, relou tantas vezes a mãos, os joelhos, rasgando as roupas, arrastando-se em gritos, correndo de si. “Ele está louco!” Ouviu em coros incontáveis vezes, sinfonia de milhares por cima das casas, com as cabeças fora dos carros; “Louco! Louco! Ele está louco!” Com vinte três experimentou uma nova camisa de força, um quarto branco e uma anorexia. Com trinta e dois uma prisão. Com trinta e quatro está em partes livre da cadeia e também das internações. E agora com por volta dos trinta e seis; dentro de um transporte publico compartilha a mesma poltrona com um homem que às vezes o olha, às vezes vá com a vista a frente e o olha de novo. Na cabeça desse sujeito, Ruando é um cara estranho, mas já viu tantas coisas estranhas que desiste de observá-lo e posteriormente ir a perguntar “o senhor está passando bem?” Ao invés disso apenas desce em seguida e daqui nunca mais o vemos. Ruando está com a cara para baixo, sua nuca contorce força certos músculos e a coluna vertebral. O piso de lata não o reflete em nada e pensando o piso que todos pisam não reflete. Ele que tanto foi pisado não quer que nada o reflita. Um homem e uma lata se identificam. Ou o homem se identifica com a lata e a lata não se identifica com nada. Transcorrido o pensamento Ruando ergueu a cabeça, deu sinal e foi embora. Sabe aonde irá descer, nesse tempo aprendeu a viver como um cego em muitas situações. Ao descer os três degraus o espelho acima que o motorista vê para ter informações sobre os passageiros, não refletiu a face de Ruando, ele aprendeu em tanto tempo de vida a evitar esses demônios. Mas se o visse ao descer, seu reflexo, por alguns segundos; suponhamos três ou quatro, nesse curto período de tempo – o que são três ou quatro segundos? – Poderia ver no primeiro segundo dentes de javali brotando de sua boca, seus olhos se expandindo por sua face, nariz e orelhas desaparecendo. No segundo do segundo mudaria o aspecto do terror; a pele da testa cobriria toda a extensão dos olhos e desceria até o nariz e a boca, não tendo nada, naturalmente cobrindo os olhos não veria que seria isso, mas saberia que era isso. E o saber é pior deveras do que o próprio enxergar de fato. Tendo ali o vazio dos seus sentidos. No terceiro segundo sua boca abriria tanto que tomaria toda sua cara, como se uma navalha cortasse o lábio superior até a testa e os dentes como de tubarões formaria um circulo e sua língua maior do que ela é seis vezes seis dançaria no ar umedecido. E se ficasse mais do que três segundo outras formas apareceriam. No centro de uma roda viva para todos os escritores de ficção cientifica e terror. Ruando poderia dar lhes idéias infinitas se alguém tivesse o juízo de levar um espelho a ele e disse-se “o senhor poderia nesse momento se barbear” nesse momento uma infinidade de criaturas do mais profundo tártaro inundaria a mente do rapaz e ele passaria idéias infinitas a todos os escritores que estivessem ali a observá-lo. Nunca utilizará um pente, há poucos anos decidiu raspar a cabeça. Fazia a barba perfeitamente sem um único corte. Acontecimentos esses que só a experiência da vida explica. Imaginemos uma pessoa que nunca se viu além do tato, e de outros que o descrevia como um homem bonito, de traços fortes, olhos negros, sobrancelha muito bem formada e fronte alterosa.  Mesmo que toda essa elegância física austera o formasse em um ogro abismal do mais simples reflexo para Ruando. Ruando na entrada de fora dos olhos alheios jamais iria além de um homem discreto, educado e facultativo. Se não existisse nada no mundo que não o refletisse, possivelmente seria um homem de família, com três crianças, um cachorro e um automóvel. Mas teria ele que esvaziar os oceanos, a água o reflete. Uma vez em passeio escolar viu em um lago tal criatura horripilante tanto quanto Cthulhu na mente de Lovecraft nós pensamos que o é. Bateu com as palmas nas águas e isolou-se por mais um mês. Agora ao entrar em casa, sentiu uma coceira no olho esquerdo e ao levar sua mão em seu rosto não conseguiu identificá-lo pelo tato “algo estranho” disse em voz para os moveis “algo estranho” repetiu. Uma deformação de sua orelha descobriu seus dedos, continuo, sentiu algo gelatinoso no cume de sua cabeça, a caixa craniana abriu, seu cérebro pulsava, seus dentes machucavam-lhe a boca, e tão grandes iriam ficando que ultrapassava seus limites. Sua cabeça não tinha mais forma humana - ele conhecia a forma humana do seu rosto por saber dos outros rostos - mas esse não era mais aquilo. Correu por toda casa, procurou algo que o refletia, lembrou de uma gaveta trancada, abriu, retirou um espelho, olhou e viu um rosto, não entendeu, saiu de casa e pelas ruas ao gritar, não era um grito humano, mas um rugido infernal, as pessoas corriam assustadas. Dos celulares ligavam e logo vieram as autoridades. Ouviu se tiros vindos do meio da multidão, não foi dos policiais, e sim de algum civil, mas não deu para ver nada. Passado a desorganização e as vozes de celeuma. Um corpo jazia e ninguém entendeu o que era aquilo, algo inusitado, incompreensível e morto. Um rapazinho tirou uma foto, ansioso para ter uma imagem do ser grotesco, mas ao fazer, era um homem morto, um homem qualquer morto, sem cara de monstro, assustava por estar morto, mas não mais do que isso. Tirou outra foto, e continuava estirado ali um homem apenas morto. Quando os homens uniformizados levantaram seu corpo, algum objeto o refletiu, todos se surpreenderam, era um homem comum, um homem comum com um tiro no peito.

Ander 03/04/2013

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

E no fim existe Buda





Não importa o que a vida atormenta...
O ser. Pois essa mesmo logo acalenta
E logo se desfaz e logo se reinventa
E se faz um sorriso sorrir vezes quantas
A segunda lágrima que cai já está certa
A terceira implode incógnita
E a quarta é ascensão anarquista
E a quinta num instrumental solista
É a paz e o descanso de um budista.

Ander 18/02/2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Algodão




De pé perante um abismo
Olhei a substancia da morte
E mergulhei em meu sadismo
Para comprovar os enigmas da sorte.

Cai em demasiados rios de lírios
Sem um ferimento ou dor impossível
E ao meu lado um estrebuchado rouxinol
Um animal que me acompanhou ao meu delírio.

Nas hostis vegetações fechadas
Senti a dor dilacerante das pedras
A espremer as facetas imaculadas
E não ter êxito nas cátedras das freiras.

E dessas veredas de tardes obscuras
A fauna inteira do Brasil a espiar-me:
- Igual à ciência ao redor de um cadáver -
E desse ínterim tais coisas a irritar-me.

Em minhas andanças evitei certo animal... 
E dessa experiência da sorte deparei-me rente a rente
Lá vindo, a rastejar, a sibilar, a maldita serpente
Lá vindo assim bem nobre arrogante e vil.

 - Numa posição antropomórfica
Este réptil zombou das duas pernas
Por essa ser glamour da razão e da perfeita física
Conseguinte filosofia e não ter compatibilidades fraternas...

Com os desígnios da religião
E no seu entendimento
Ser um símbolo da perversidade
Para essa e da sabedoria na filosofia
Era um rudimento incrivelmente inexo -
Gritei “sai daqui demônio irreflexo!”

Cansado dos bichos de terra pulei ao mar
E esse me vomitou no mesmo instante
É que o mar desdenha o homem antes
E o homem o mar quer tomar.

Cai em terra, mas logo fui levado pelas aves
Tão alto, tão alto, tão alto que andei nas nuvens
E parei de andar e parei de tudo dentro dessa aeronave
Somente esses pedaços brancos, algodões de versos para narrar.


Ander 16/02/2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Coração Meu





Meu coração tem catedrais imensas
Alastradas, escancaradas e sombrias
Quero eu inundá-las até o teto, todas elas...
Das torrentes das águas das chuvas
Os tolos corredores de Meu coração
Meu coração é um labirinto de espinhos
E sou cárcere do labirinto de Meu coração.

Ander 10/02/2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Dionísio XXI







Dionísio moribundo suspirava
Ao pé da gigantesca sepultura
Ergueu o dedo suave a altura
E ao seu epitáfio falava.

O sexo espiritual eunuco
Estagnado incredulamente
Paladar horrível. Soltura dos dentes
E o vinho vazado de uma vagina cancerígena.

Dionísio Bradava! Hoje a desdém
Antidepressivos nessa hora
Pois não há ninfas a deixá-lo duro
Ou mancebos a bolinar seu rabo.

Cornucópia dos sentidos
Deus da orgia, deus da libido
Odores de seus vales apodrecidos
E há só moscas aos redores de Dionísio.

Ander 02/02/2013

domingo, 20 de janeiro de 2013

Chuva



Chuva, já não é tão mais bem vinda
E olha que gosto muito e muito de você
Mas a musicalidade dos pingos é como arranhões
E quero que você vá de mala feita, assim molhada
Já tenha me enchido muito. O guarda-chuva
Por exemplo, já é meu vestuário preferido.

Ander 14/01/2013

Maria



Oh! Maria, o dinheiro é um símbolo
De mais danações do que fortúnio
E variado mais do que compreendido
O Dinheiro o Amor e o Suicídio
São irmãos dos mais íntimos
A felicidade não está nessas formas...
Abstratas. Quando na natureza
Ninguém é dono de nada
E poesia não enche nada
Nem espírito porque não existe espírito
E o estomago é uma ilusão mais dura
Mas não deixa de ser uma ilusão ainda
E seu filho, o Jesus Cristo
Estaria muito chateado com sua conduta.

Ander 20/01/2013