Fobia em sua etimologia vem do medo mórbido ou patologia que
temos de lugares, objetos, altura, água, etc. Hidrofobia e aracnofobia são
alguns dos conhecidos. A aracnofobia, por exemplo, leva um homem feito desesperar-se
por um simples aparecimento de inofensiva aranha. Agora pegamos o caso de Ruando,
sua fobia é algo de interesse singular do que nada se vê por esses tempos. Consiste
em um medo aterrador de sua imagem, ver seu reflexo trás extremo pânico. Em sua
cabeça sua imagem consiste em criaturas das mais assombrosas e, no entanto para
uma pessoa que está ao seu lado, um desconhecido dividindo uma poltrona em um
transporte publico; esse o notara como um homem de por volta de trinta e seis
anos, de estatura mediana e profissão mediana, sem mais, e sem menos. O
aceleramento do coração, exasperado frio nas mãos e tremedeiras são alguns dos
sintomas que acompanha o pobre infeliz desde a tenra idade. Chorar o dobro de que
uma criança tem para chorar em um choro, muitas vezes triplicava ao que o
espelho no movimento do seu corpo ao ser trocado sua fralda refletia a imagem
daquela massa ainda em desenvolvimento e mesmo sem conhecer as aflições do
mundo ou ter conhecimento primário do que seu corpo ainda terá duas fases e a
ultima o marcara para sempre; o andar das duas pernas. Mesmo ainda sem ter
esses conhecimentos técnicos e filosóficos, o sobrenatural e patológico age em
seu pequeno coração e o mutila. A criança berra, a mãe pega o acalma e não
entende. Quando a criança silencia, volta ao seu berço e adormece. Horas mais
tarde acorda naturalmente e segue os rituais de uma família qualquer. Casa
simples como há de ser, um espelho também o é, não mais privilegio de abastada
família rica de alguns séculos atrás, esse objeto é usual e nessa casa não
difere, está pendurado além do banheiro, no corredor e sem demais importância
em um lugar do quarto. Sem mais importância até o aparecimento de Ruando, os outros
dois espelhos continuam a existir, o terceiro também, mas esse terceiro em
especial, não por ser especial por algo que o faz especial, seus materiais são
os mesmos dos outros, função única de refletir. O que o destaca para nossa
leitura, e para Ruando, não faz diferença para a família. Para nós leitores a
diferença consiste em saber que esse espelho é o único do qual Ruando faz sua
autopsia, apesar de não confundirmos com necropsia, podemos levar em
consideração essa colocação visto que a criança ao olhar para sua imagem enxerga
sua face ainda se construindo a uma imagem humana, como é de toda criança, mas
além dessas características naturais, o que ela vê é uma monstruosidade sem
tamanho e apesar de seu simples cérebro não ter as noções claras sobre esses
horrores, conseqüentemente algo feio
pode ser algo bonito e vice-versa num mundo infantil. Essa faceta contém olhos
tão esbugalhados que saem da orbitas, o nariz desaparece e vê-se um buraco
negro, e a boca, essa em sangue preto a escorrer. Em seguida a carne necrosada,
como aquilo estivesse morto há dias. Essas transformações ocorrem variavelmente
toda vez que a criança olha no espelho e berra como se os pulmões saíssem pela
boca. Outra vez a carranca de um cão, como se mil moscas o tivessem a devorar
lhe o focinho. Essas manifestações de terror é o reflexo da desgraçada criança,
e logo uma criança maior e depois adolescente e homem maior. Esse pesadelo o
acompanha desde então. Fachadas de prédios, lojas, veículos, a visita de rotina
a um amigo ou o reflexo de dois rostos enamorados na moldura de um espelho
velho. Em resumo; espelhos quebrados e tudo o que pode refletir o
incompreensível e o fantasmagórico. Imaginamos que se um bebê começasse a se
enxergar no mais profundo do pesadelo, se algo não cura, piora, ou fica no meio.
Com dez anos piorou e Ruando passou de hospital a hospital, internado,
considerado louco. Com quinze veio à cura e cinco anos de sua vida foi feliz,
compreendeu, viveu seus anos de ouro. Amou. Surpreendeu-se e se embriagou. Com
vinte a piora, tudo volta, ainda pior. Não só a figura macabra de sua imagem
como agora essa o atacava, ele recuava em supremo, relou tantas vezes a mãos,
os joelhos, rasgando as roupas, arrastando-se em gritos, correndo de si. “Ele
está louco!” Ouviu em coros incontáveis vezes, sinfonia de milhares por cima
das casas, com as cabeças fora dos carros; “Louco! Louco! Ele está louco!” Com
vinte três experimentou uma nova camisa de força, um quarto branco e uma
anorexia. Com trinta e dois uma prisão. Com trinta e quatro está em partes livre
da cadeia e também das internações. E agora com por volta dos trinta e seis;
dentro de um transporte publico compartilha a mesma poltrona com um homem que às
vezes o olha, às vezes vá com a vista a frente e o olha de novo. Na cabeça
desse sujeito, Ruando é um cara estranho, mas já viu tantas coisas estranhas
que desiste de observá-lo e posteriormente ir a perguntar “o senhor está
passando bem?” Ao invés disso apenas desce em seguida e daqui nunca mais o
vemos. Ruando está com a cara para baixo, sua nuca contorce força certos
músculos e a coluna vertebral. O piso de lata não o reflete em nada e pensando
o piso que todos pisam não reflete. Ele que tanto foi pisado não quer que nada
o reflita. Um homem e uma lata se identificam. Ou o homem se identifica com a
lata e a lata não se identifica com nada. Transcorrido o pensamento Ruando
ergueu a cabeça, deu sinal e foi embora. Sabe aonde irá descer, nesse tempo
aprendeu a viver como um cego em muitas situações. Ao descer os três degraus o
espelho acima que o motorista vê para ter informações sobre os passageiros, não
refletiu a face de Ruando, ele aprendeu em tanto tempo de vida a evitar esses
demônios. Mas se o visse ao descer, seu reflexo, por alguns segundos;
suponhamos três ou quatro, nesse curto período de tempo – o que são três ou
quatro segundos? – Poderia ver no primeiro segundo dentes de javali brotando de
sua boca, seus olhos se expandindo por sua face, nariz e orelhas desaparecendo.
No segundo do segundo mudaria o aspecto do terror; a pele da testa cobriria
toda a extensão dos olhos e desceria até o nariz e a boca, não tendo nada,
naturalmente cobrindo os olhos não veria que seria isso, mas saberia que era
isso. E o saber é pior deveras do que o próprio enxergar de fato. Tendo ali o
vazio dos seus sentidos. No terceiro segundo sua boca abriria tanto que tomaria
toda sua cara, como se uma navalha cortasse o lábio superior até a testa e os
dentes como de tubarões formaria um circulo e sua língua maior do que ela é
seis vezes seis dançaria no ar umedecido. E se ficasse mais do que três segundo
outras formas apareceriam. No centro de uma roda viva para todos os escritores
de ficção cientifica e terror. Ruando poderia dar lhes idéias infinitas se
alguém tivesse o juízo de levar um espelho a ele e disse-se “o senhor poderia
nesse momento se barbear” nesse momento uma infinidade de criaturas do mais
profundo tártaro inundaria a mente do rapaz e ele passaria idéias infinitas a
todos os escritores que estivessem ali a observá-lo. Nunca utilizará um pente,
há poucos anos decidiu raspar a cabeça. Fazia a barba perfeitamente sem um
único corte. Acontecimentos esses que só a experiência da vida explica. Imaginemos
uma pessoa que nunca se viu além do tato, e de outros que o descrevia como um
homem bonito, de traços fortes, olhos negros, sobrancelha muito bem formada e
fronte alterosa. Mesmo que toda essa
elegância física austera o formasse em um ogro abismal do mais simples reflexo
para Ruando. Ruando na entrada de fora dos olhos alheios jamais iria além de um
homem discreto, educado e facultativo. Se não existisse nada no mundo que não o
refletisse, possivelmente seria um homem de família, com três crianças, um
cachorro e um automóvel. Mas teria ele que esvaziar os oceanos, a água o reflete.
Uma vez em passeio escolar viu em um lago tal criatura horripilante tanto
quanto Cthulhu na mente de Lovecraft nós pensamos que o é. Bateu com as palmas
nas águas e isolou-se por mais um mês. Agora ao entrar em casa, sentiu uma
coceira no olho esquerdo e ao levar sua mão em seu rosto não conseguiu
identificá-lo pelo tato “algo estranho” disse em voz para os moveis “algo
estranho” repetiu. Uma deformação de sua orelha descobriu seus dedos, continuo,
sentiu algo gelatinoso no cume de sua cabeça, a caixa craniana abriu, seu
cérebro pulsava, seus dentes machucavam-lhe a boca, e tão grandes iriam ficando
que ultrapassava seus limites. Sua cabeça não tinha mais forma humana - ele
conhecia a forma humana do seu rosto por saber dos outros rostos - mas esse não
era mais aquilo. Correu por toda casa, procurou algo que o refletia, lembrou de
uma gaveta trancada, abriu, retirou um espelho, olhou e viu um rosto, não
entendeu, saiu de casa e pelas ruas ao gritar, não era um grito humano, mas um
rugido infernal, as pessoas corriam assustadas. Dos celulares ligavam e logo vieram
as autoridades. Ouviu se tiros vindos do meio da multidão, não foi dos
policiais, e sim de algum civil, mas não deu para ver nada. Passado a
desorganização e as vozes de celeuma. Um corpo jazia e ninguém entendeu o que
era aquilo, algo inusitado, incompreensível e morto. Um rapazinho tirou uma
foto, ansioso para ter uma imagem do ser grotesco, mas ao fazer, era um homem
morto, um homem qualquer morto, sem cara de monstro, assustava por estar morto,
mas não mais do que isso. Tirou outra foto, e continuava estirado ali um homem
apenas morto. Quando os homens uniformizados levantaram seu corpo, algum objeto
o refletiu, todos se surpreenderam, era um homem comum, um homem comum com um
tiro no peito.
Ander 03/04/2013




